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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um novo motivo para torcer

Jacqueline Costa



Hoje eu me peguei pensando em como a gente se apega a determinadas coisas que não fazem o menor sentido: Da mesma forma que essas coisas nos deixam radiantes em determinados momentos, elas nos deixam à beira da depressão em outros.

Essa sempre foi a minha relação com o futebol. Sempre me perguntei por que não temos jogos o ano inteiro, com duas equipes por time: uma para uma parte do ano e outra, para a outra, ou equipes diferentes para campeonatos diferentes. Tenho dificuldades em lidar com essa parte do ano em que a novela das 9 dura até às 10 e pouco na quarta, em que tem filme à tarde no sábado, programas péssimos na tarde de domingo, em que também não temos aqueles programas com entrevistas com jogadores, técnicos, dirigentes e toda aquela comoção no trabalho para comentar a última rodada, além dos prognósticos para as próximas. Tudo isso é quase sufocante para mim.

É aí que na saudade do futebol, você se rende a outros esportes e espera que eles te façam suspirar com a mesma intensidade, aguardar o próximo jogo com a mesma ansiedade e torcer com a mesma empolgação. Foi aí que eu me rendi ao futebol americano e, em poucas semanas, estava completamente apaixonada pela correria, pelos lançamento e montinhos de jogadores uns sobre os outros. Já gritava com a mesma intensidade touchdown que um gol. Já considerava um field goal como um gol que valia menos. Já mandava os técnicos pedirem tempo, queria jogo parado, em alguns momentos, e relógio correndo, noutros. Já estava totalmente adaptada à função dos gordinhos e dos miúdos mais velozes naquele jogo, em que todo tipo de porte tem lugar, e aprendi que quando o quaterback fica fora do jogo, não significa que ele foi mandado para o cantinho do pensamento para refletir sobre a jogada anterior. Vibro com as jogadas voadoras, com os saltos em direção à end zone e com as interceptações, como se fossem uma defesa de pênalti.

Fui descobrindo a dinâmica do jogo e ficando cada vez mais ansiosa para a próxima rodada. A cada fim de semana, uma novidade. Só ainda não dominei todas as hipóteses em que o cronômetro pára. Mas acho que vou ter que esperar pela próxima temporada, que, por sinal, é perfeita para mim: começa quando o nosso futebol está nos "finalmentes" e termina quando os Estaduais estão começando.

Ao longo dessa temporada 2013/14, elegi obviamente um time do coração: San Francisco 49ers. Resisti a todo o encantamento do marido da Gisele, quaterback (gato) dos Patriots, em favor da elegância do time que tem as cores da Burberry. Ontem não consegui ver o jogo do meu time até o fim, mas fui dormir tranquila, já que ele dominava o placar na primeira parte do jogo. Só que ele sofreu uma incrível virada e perdeu a vaga no XLVIII Super Bowl para o Seattle Seahawks. Fiquei arrasada. Aliás, ainda estou. Não me recuperei desse baque. Já o tinha imaginado, disputando o Super Bowl com os Broncos, já que o Tom Brady me fez o favor de jogar bem mal, diga-se de passagem, e o Patriots perdeu o jogo para os Broncos.

Mas como toda boa torcedora, vidente, taróloga e numeróloga, que tento ser, com base em todos os meus conhecimentos sobre matemática, probabilidade, sobre a posição dos astros no céu e sobre a minha longuíssima experiência com o trato das coincidências da vida, ano que vem não tem erro: O Super Bowl de número 49 só poderá ser dos 49ers. E o meu Tuquinho há de concordar comigo! (Repare na menção já nas primeiras semanas do ano!)

Para quem nunca parou para ver, uma boa oportunidade é o XLVIII Super Bowl, que será no próximo dia 02/02, a partir das 21h com show de Bruno Mars no intervalo. Não sei sobre outros canais, mas acompanho tudo na ESPN, que tem os narradores os mais divertidos possíveis. (Adoro quando em um lance emocionante um deles diz: "Jesus, Maria e José!" ou quando a partida está pouco emocionante e o outro conta sobre a viagem com a família para Caldas Novas...)

Tomara que se apaixonem também e que eu tenha mais gente com quem comentar sobre todas as rodadas! E para o time do coração, os 49ers são uma boa pedida, hein!

Foto: Reprodução.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O que é ser nerd?

Jacqueline Costa



Fim de semana com aniversário do Luhen, que é aquele tipo de pessoa para quem não se diz não. Apenas questiono o que vamos fazer e vamos lá, por mais que nossas preferências pessoais não sejam exatamente parecidas. Ele curte o clássico programa de macho, com aqueles rocks estranhos e muita gente esquisita. Mulher? Nesses ambientes, se juntar todas, não dá meia. Mas vamos lá.

Ele juntou alguns amigos e fomos para o Pubcrawl na Vila Madalena. Era uma festa meio nômade, que ia mudando de lugar de tempos em tempos, indo de baladinha em baladinha com um bando de gente, que, a cada parada, ficava um pouquinho mais bêbado. Na concentração, notamos que pagaríamos mais caro, porque não estávamos fantasiados, o que, nesse caso, considero que seja uma bela vantagem. Preciso estar investida de surpreendente motivação para sair por aí em um sábado qualquer, que nem é de Carnaval, vestida de She-Ha ou de Chiquinha.

Era uma típica festa de jovens nerds. E no contexto jovem, definitivamente não nos inseríamos. Vi uma menina que se achada a verdadeira idosa por saber cantar inteira a música do Pokémon. Eu pensei: "Minha filha, eu sei recitar The get along gang!" Melhor do que isso, só o susto que a menina que servia cerveja tomou ao ver que um amigo do Luhen era noivo, realidade bem distante para ela.

Em meio a risadas, dancinhas e bebidas em copos gigantes, fomos parar em uma balada cubana. Adoro salsa, mas me sentia num vidro de tempero pronto de tão cheio que o lugar ficou. Fui ao banheiro e enquanto esperava a minha vez, em uma fila lado a lado com a do banheiro masculino, um rapaz me abordou e, sem pestanejar, me disse: "Sua bolsa não é nerd!" Concordo que chutches da moda realmente não façam parte do universo dele. Aliás, ele, de fato, não devia saber o que é uma clutch e para que serve exatamente. No mínimo, deve achar que aquilo tem cara de estojo ou porta-post-it.

Fiquei pensando nisso, meio indignada, confesso, até chegar em casa. Primeiro que acredito que o adjetivo nerd se coadune com pessoas, jogos, comportamentos, mas, em relação a bolsas, foi para mim novidade. Segundo que não consegui conceber exatamente o que seria uma bolsa nerd. Talvez seja uma bolsa feita de Lego. Não sei. Ainda não concluí nada a respeito. Acho que o mais próximo de bolsa nerd que eu posso chegar é usando a Chanel realmente inspirada no Lego. Essa sim combina comigo. Pena que ela não combina exatamente com o meu orçamento...



Foto: Reprodução.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Espelho, espelho meu

Jacqueline Costa



Era só uma espera. Aguardava no shopping, enquanto meu marido não saía do trabalho. (Aliás ainda estou me adaptando a dizer "meu marido", mas acho uma delícia!) Aproveitava para ver vitrines, apreciar o que posso e especialmente o que não posso comprar, mas que há muito incluí na minha lista de desejos de consumo secretos. Ainda havia umas boas dezenas de minutos para esperar, quando resolvi entrar na Zara e provar algumas peças.

Enquanto eu escolhia, notei que duas adolescentes aproveitavam aqueles últimos dias de férias para fazer compras juntas, bem no fim da tarde. Uma discutia com a outra a respeito das escolhas daquela que estava acima do peso e eu só observava. Certamente, o espelho dessa mocinha era bastante caridoso e carinhoso com ela, que se via com uma silhueta bem mais fina e esguia do que realmente apresentava. Ela escolhia modelos curtos, decotados, rodados. Só aqueles capazes de ressaltar o que ela tinha de pior.

A amiga, preocupada ao constatar o gosto estranho da outra, dava alguns conselhos recheados de bom-senso, mas a mocinha não queria ouvir. Repetia que gostava de roupas assim e que era ela quem as usaria, enquanto apostava em cores e em um mix de estampas das araras da promoção.

O que mais me chamou a atenção é que a amiga preocupada, era das mais magrinhas e eu ficava imaginando como ela ficaria linda com sainhas mais curtas e camisas coloridas ou estampadas, mas ela só buscava vestidões soltos, tipo camisa, que também não eram os melhores para ela. Percebi que havia ali um excesso de conservadorismo desnecessário ou que o espelho a maltratava, já que o corpo dela aceitaria feliz um leque bem variado de opções.

Uma tão gordinha e liberal e a outra, magrinha e conservadora, pensava eu, enquanto saíam ambas da loja felizes com suas escolhas e eu parti para as minhas. Entrei para os provadores com umas 10 ou 12 peças. Dessas, apenas duas me serviram. O meu espelho também não tem sido o meu melhor amigo. Tenho me visto bem mais gorda do que realmente estou e só escolhia peças com tamanhos anormais para mim.

Definitivamente não sou o que eu acho que vejo no espelho sempre. Quando estou mais sensível, por qualquer motivo, penso que visto 42. Já se acordo de bom humor, me vejo garrada no 38, quiçá 36. Acho que todo mundo tem um pouco dessa inquietação consigo mesmo. Mas mais do que a amiga preocupada e conservadora, quero ser a amiga gordinha, desprendida, livre e feliz comigo mesma.

Foto: Reprodução.

sábado, 27 de julho de 2013

O que ele me diz

Jacqueline Costa



A pia caiu. Na verdade, o bojo da pia da cozinha caiu. Ninguém pode imaginar o quão difícil é ficar sem pia. Talvez só se compare à falta de geladeira. A solução para o problema era mesmo não sujar nada até que o zelador resolvesse o problema.

Liguei para o Gui. Tínhamos que sair, mesmo com todo aquele frio, porque entre o problema e o conserto da pia tínhamos que jantar e cozinhar sem pia não seria nada prático e usar o tanque, nada higiênico. Combinamos que ele já me pegaria na porta do prédio para agilizar, porque, àquela altura, a fome já apertava.

Nem me arrumei, porque conto com a elegância intrínseca dos casacos e das botas do inverno, para deixar um pouco de lado a maquiagem. Trajada para mais uma noite de muito frio, como as que têm nos visitado ultimamente, entrei no elevador, passei só um batom ali mesmo e fiquei tremendo na porta, esperando por ele.

Apenas alguns minutos foram suficientes para que me sentisse um cubo de gelo. Parecia estar descalça, apesar das meias grossas e bota. Meu nariz, mais vermelho do que o da rena do Papai Noel. E eu ali, com meus amigos seguranças do prédio, aguardando ansiosamente a chegada do menino.

Ele chegou! Abraçou-me e me disse, tão carinhoso, o quanto se sentiu feliz quando pegou a chave do carro para voltar para a casa e me encontrar.

O frio instantaneamente passou e eu não conseguia mais parar de sorrir. Era só uma fala, mas para mim, a mais linda declaração de amor do mundo. Fiquei pensando no quanto também me sinto assim. Chegar em casa só não é melhor do que quando ele chega. Tê-lo perto, mesmo que seja de um lado da mesa trabalhando e eu do outro, estudando, é a melhor coisa do mundo para mim.

Acho que eu achei a fórmula do amor. A companhia dele é sempre deliciosa. Gosto quando saímos juntos. Adoro ficar em casa com ele. Encontrar em uma fala ou em um pequeno gesto tanto amor e carinho é o que me faz muito, muito feliz.

Foto: Reprodução.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A escolha do traje indiano para o casamento

Jacqueline Costa



Além de passear, nos deliciar com a comida indiana e curtir as nossas férias, tínhamos a missão de comprar trajes típicos para o casamento, que fundamentou a nossa ida para a Índia. A princípio isso pode parecer uma missão muito fácil, mas, definitivamente, não foi.

Assim como para calças jeans, há uma infinidade de marcas de roupas indianas, tipos, modelos específicos e adequados para casamento. Tínhamos que saber ainda o que está na moda lá ou não. Pior, teríamos que procurar alguma coisa que nem sabíamos exatamente o que era.

A primeira coisa que descobrimos é que não existem apenas sáris para as mulheres. Outros modelos também podem ser usados nos casamentos, como anaarkali, que é um vestido rodado com saia, e salwar suit, que é um vestido bem menos rodado e com cortes laterais sobre uma calça.

Eu precisava arrastar meu sári na medina. Por isso, seguimos direto para a loja, que nos foi indicada pela noiva para a compra do sári. Havia cada tecido maravilhoso e tudo era bastante caro, mas eu estava bastante disposta a pagar o preço. Escolhi um em tons de verde e azul, minhas cores preferidas, mas não contava com um empecilho: Embaixo do sári é preciso usar petitcoat, que é uma espécie de anágua, e blouse, que é um top cropped lindo! Já estava pensando que isso com uma saia alta ia arrasar posteriormente... O problema é que essas duas peças são feitas sob medida e demoram, pelo menos, três dias para ficar prontas. Nós não tínhamos todo esse tempo antes de partir para Udaipur, onde aconteceria o casamento.

Ainda que superasse esse obstáculo, ainda tinha que aprender como vestir o sári. Aquela ideia que passa na cabeça de todo mundo, que se trata de uma toalha enrolada Fui obrigada, bem a contragosto, a desistir da ideia.

Na busca pelos outros possíveis modelos, encontramos uma loja, por que eu fiquei simplesmente encantada: a Fabindia. Lá tem todos os tipos de roupas indianas femininas e masculinas, acessórios, itens para a casa, óleos, sabonetes e cremes hidratantes. Ou seja, lá tinha tudo que eu gosto. Se um dia eu voltar na Índia, terei que voltar naquela loja e vou indicá-la para todo mundo que for dar uma voltinha lá na terra das especiarias.

Eu e o Gui nos divertimos horrores, provando as roupas e vendo o que ficaria melhor em nós. Eu já olhei para a calça pensando que era melhor eu arrumar algo que combinasse com preto para eu usar a minha legging por baixo, porque aquilo não passaria na minha canela extremamente roliça de jeito nenhum! Aprendi que havia um truque para vesti-la e passou! O Gui tinha encontrado uma roupa linda, mas não tinha a que fosse do tamanho dele. Ou era grande demais ou a camisa ficava justinha, o que não coadunava com o propósito do traje. Tivemos que escolher outro modelo. Enfim, encontramos um, que tinha toda a combinação exata! Não podia perder a oportunidade e escolhi logo uma clutch para combinar com a minha roupa e que agora vou usar bastante aqui no Brasil.

Tudo separado e conferido, o Gui saiu de lá com os trajes do Alladim em mãos, mas tivemos que passar em outra loja para comprar os sapatos, que é a parte mais importante da roupa. Eu sai completa, porque já tinha as sandálias para combinar. Optei pelo salwar suit, já que não era possível encontrar o sári e o anaarkali é um traje, digamos, bastante "engordativo"... Mas escolhi um modelo lindo, com as minhas cores prediletas e que poderei modificar depois. Já sai da loja cheia de ideias para isso!

Pronto! Já estávamos aptos a participar de um casamento indiano. Agora só faltavam os dias de festa em Udaipur, que depois contarei como foi.

Fotos: Jacqueline Costa

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Agra day trip: Chegamos ao Taj Mahal

Jacqueline Costa



Depois de muito susto na noite anterior, saímos de mala e cuia do hotel em Karol Bagh. Íamos para Agra e, na volta, direto para o novo hotel, que conseguimos reservar, conforme indicado pelo amigo do Gui.

A Daria estudou com o Gui e, junto com o marido, ela nos convidou para ir com eles para Agra, cidade em que fica o Taj Mahal. Um amigo indiano tinha indicado para eles um motorista, que nos levaria e passaria o dia todo conosco.

Eu entrei no carro e apaguei! Não tinha dormido direito na noite de puro terror, que tínhamos vivido em Karol Bagh. Era um daqueles carros grandes, de sete lugares, e eu fiquei com o último banco só para mim. A partir daqui, contarei a ida com as palavras do Gui, já que dela não tive a oportunidade de participar intensamente.

Saímos do nosso hotel antes das 7h30' e esperávamos chegar em Agra de duas horas e meia a três horas depois. Infelizmente não tivemos essa sorte...

Existem duas estradas que vão para Agra: uma antiga, que passa por dentro de várias cidadezinhas, com o trânsito indiano de praxe, e uma highway excelente, vazia e bem sinalizada, mas com pedágio.

O senhor motorista, para economizar no pedágio, nos submeteu a uma viagem de mais de cinco horas na estrada velha. A Daria, quando percebeu o que ele estava fazendo, ficou uma onça! Ela gritava, esbravejava, xingava o motorista e o mandava pegar a highway, mas ele foi reticente por bastante tempo.

Em uma das paradas, por causa do trânsito nessas cidadezinhas, cortadas pela estrada antiga, na qual viajávamos, uma moto bateu na lateral do nosso carro, bem pertinho de mim, mas meu sono me impediu de ver o que tinha acontecido... Isso também ocorreu quando o motorista tentou ligar o som do carro, para aliviar a tensão dos passageiros. O botão de ajuste do volume estava quebrado e, sem querer, ele colocou no volume máximo. Isso também não me acordou, deixando a Daria perplexa com meu sono.

A tensão era tanta, que o marido dela não aguentou e começou a vomitar sem parar. Ele era um tipo magro, baixo, de aparência bem frágil e que sucumbia, sem titubear, àquela russa e tanto, que é a Daria. O coitado parecia que ia morrer! Ele ficou tão fraco, que achei que não fosse nem aguentar descer do carro.

Diante de tudo isso, só o Taj Mahal para nos fazer rir de novo (apesar de que eu estava rindo por dentro com aquela viagem quase inacreditável). Por isso, quando chegamos a Agra, ao invés de pararmos antes nos outros pontos turísticos da cidade, fomos direto para o Taj Mahal.

Quando entramos e vimos aquilo, concluímos que tudo tinha valido a pena. É mesmo encantador. É a coisa mais bonita, que eu já vi na vida. Realmente aquilo merece o título de uma maravilha do mundo. Todos nós ficamos arrepiados, entusiasmados e acabamos, mesmo que apenas por alguns instantes, nos esquecendo da ida traumática para Agra.

São minuciosos detalhes esculpidos em mármore. Na verdade, para mim, aquilo é pura poesia em mármore. É uma história de amor, contada para toda a eternidade pelo Sr. Mahal, que resolveu assim se declarar para a Sra. Mahal, sua esposa favorita, que morreu ao dar à luz ao seu décimo quarto filho. O Taj foi construído sobre o túmulo da senhora. Claro que a parte da esposa favorita, a gente adapta para a nossa realidade e continua vivendo um sonho romântico com tudo aquilo a nossa frente.

Só foi uma pena descobrir que o Sr. Mahal, que teve a ideia brilhante, não pararia por aí, se ele não tivesse sido deposto por um de seus filhos. Ele pretendia construir para ele, para o seu túmulo, um Taj igualzinho, porém preto, do outro lado do rio, que passa atrás do Taj original. É, essa maravilha do mundo poderia ser até mais completa. Acho que fomos nós que saímos perdendo com esse golpe de estado aí...

Voltamos para o carro, rumo às outras atrações de Agra. Só não contávamos com o fato de que o carro não ligaria. Indianos de toda parte se uniram para empurrar. Tentaram fazer pegar no tranco, ligação direta, mas nada deu certo. O jeito foi acionar o mecânico mais próximo. Mais de duas horas depois e com a conta do mecânico paga por nós, o jeito foi voltar para Delhi.



Eu nem fiquei tão chateada assim. Afinal de contas, voltar para o Brasil sem conhecer o Taj Mahal é que seria realmente muito frustrante... Pronto! Missão cumprida! O Menino já tinha a sonhada foto naquela maravilha do mundo com a camisa do Cruzeiro, como ele tinha sonhado.

De volta a Delhi, combinamos que ficaríamos no hotel em que a Daria estava com o marido e, de lá, pegaríamos um táxi para o nosso novo hotel. Obviamente quando fomos pagar a viagem, solicitamos um abatimento no preço por causa das horas que perdemos na estrada velha, do carro quebrado e da conta do carro, que pagamos. O motorista não quis aceitar. Ligamos para o chefe dele e para o indiano, que nos tinha indicado esse senhor, mas nada foi resolvido.

Muito cansados e com  a maior fome do mundo, já que o que comemos o dia todo foram os itens do regime (barrinha de cereal e biscoito integral), deixamos com a Daria o valor que achávamos justo e pegamos o táxi para o nosso hotel. Na saída, o Gui ainda conseguiu ver o motorista de tocaia com um outro homem, que deve ser o chefe dele.

No dia seguinte, soubemos pela Daria que ele não quis receber o pagamento e foi cobrar do nosso amigo indiano, com quem nos encontramos novamente em Udaipur e pudemos fazer o acerto direitinho. No fim das contas, essa viagem ainda saiu bem baratinha e apesar da confusão, o que ficou para a gente foi a vista do Taj Mahal, do que a gente nunca mais vai se esquecer.

Fotos: Jacqueline Costa

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nunca confie em blogs de viagem sobre a Índia ou seja (in)feliz em Karol Bagh

Jacqueline Costa




Vista da Jama Masjid Mosque. Mas as rua de Karol Bagh não eram lá muito diferentes.

Depois de um almoço delícia com alguns amigos indianos do Gui, embarcamos de Mumbai para Delhi. Vôo atrasado e algumas horas no aeroporto não foram capazes de tirar a nossa alegria. É uma delícia passar o tempo com o Gui, seja viajando, passeando ou em casa, sem nada para fazer, porque a gente se diverte muito, quando estamos juntos.

Ainda no aeroporto comprei um presente de Natal para ele. Ele achou um outro mais legal do que o que eu comprei. Troquei pelo outro, que ele julgava melhor, e o menino parecia uma criança de tanta alegria com seu novo brinquedo tecnológico!

Chegamos em Delhi e pegamos um táxi. Já tínhamos ali nos acostumado com a logística indiana: Vários carregadores ao lado das esteiras, querendo carregar nossas malas por algumas rúpias, vendedores, que vendem de tudo e taxistas, que não falam inglês.

Aliás, essa foi uma das maiores quebras de paradigma da minha vida. A gente estuda na escola que o inglês é um dos idiomas oficiais da Índia e tem em mente que todo mundo lá fala algum outro idioma oficial, além do inglês, é claro. Definitivamente, isso não é verdade. Só os ricos, que tiveram a oportunidade de estudar em boas escolas, e as pessoas ligadas ao turismo, que trabalham em hotéis, lojas e nos pontos históricos das grandes cidades, falam inglês. Na verdade, todo mundo se comunica pelo hindi e suas variações.

Em Delhi, pegamos o táxi, já mais acostumados aquele trânsito maluco, rumo ao hotel em Karol Bagh. O Gui escolheu esse hotel com base no que os blogs de viagens para a Índia aconselhavam. Eles diziam que se você não for mochileiro, o que definitivamente não é o nosso caso, deve ficar em Karol Bagh. E lá fomos nós!

Notamos que o táxi estava rodando demais, fazendo curvas demais e entrando em ruas estranhas e vielas bem estreitas. De repente, as ruas já não tinham mais asfalto, apenas terra batida (isso não é incomum nas grandes cidades indianas). Havia montes de lixo por toda a parte e moradores de rua, dormindo em torno de fogueiras. Os que estavam acordados, reviravam o lixo. Era tudo bem parecido com o lixão do Nilo e da Mãe Lucinda.

O táxi parou e esperávamos que tivéssemos encontrado uma ilha limpinha e acolhedora em meio a toda aquela confusão. Quando chegamos no quarto e abrimos a porta do banheiro, compartilhamos uma enorme vontade de chorar. Somos adeptos do simples, sem chilique, mas limpinho. É só do que precisamos. Mas aquele banheiro não tinha a menor condição. Baldes sujos no banheiro, uma banheira inacabada, faltava reboco em boa parte das paredes e as toalhas pareciam lonas de caminhão. Era realmente inabitável. Estávamos no "No limite" no meio do lixão de "Avenida Brasil"!

A primeira reação do Gui foi ligar para um amigo dele de Delhi, que nos convidou para um jantar com outros amigos em comum. Aceitamos! Afinal de contas, precisávamos de dicas sobre um lugar minimamente habitável naquela cidade e com um quarto disponível para nós.

Pedimos um táxi na recepção do hotel. Eles nos disseram que custaria 1500 rúpias. Sabíamos que era um verdadeiro roubo, mas não tínhamos saída. Precisávamos chegar naquele jantar! Víamos nisso a nossa salvação. Sério! A gente precisava sair dali o quanto antes possível.

Mas antes, ainda tínhamos um embate com o pessoal da recepção, que não queria nos devolver os nossos passaportes para sairmos. Como diria o povo de Florestal, "vê lá" se eu ia sair dali sem meu passaporte, com a minha cara de estrangeira, naquela terra estranha, em que nem todo mundo fala uma língua, que eu entenda... Depois de ter que ser um pouquinho, digamos, enérgica, estávamos com nossos passaportes em mãos e prontos para o jantar com os amigos do Gui.

O taxista nos pegou no hotel e o sujeito não falava nem uma palavra em inglês. À medida que ele passava pelas ruas próximas, mais assustados nós dois ficávamos. Para piorar, não mais que de repente, ele parou, sem qualquer explicação, em uma rua totalmente escura com uns cômodos feitos com aquelas madeiras de tapume. Ali além de um bar com uma chapa para o churrasquinho local, que fazia uma fumaça sem fim, parecia funcionar alguma coisa como uma banca de jogo do bicho. Homens estranhíssimos estavam lá e o nosso taxista foi conversar com alguns deles.

A minha vontade era sair correndo dali, mas essa era, sem dúvida, a pior decisão. Eu via o pânico nos olhos do Gui e tudo o que eu tinha a fazer era tentar manter a calma, controlar meu coração, que queria sair pela boca, e as minhas mãos trêmulas, apesar de aquela ser a cena mais assustadora de toda a minha vida. Naqueles minutos, em que estivemos parados ali, um monte de coisas, todas ruins obviamente, passaram em nossas cabeças. Tráfico de pessoas? Não. Acho que já passamos da idade para isso. Arrancariam nossos rins? Talvez. Afinal de contas, somos jovens, estrangeiros, parecemos saudáveis e não falamos uma palavra em hindi. Podíamos ser facilmente sequestrados. Talvez quisessem só dinheiro. Em todo caso, éramos os reféns perfeitos!

O cara voltou para o carro e eu e o Gui ainda completamente assustados começamos ali mesmo a revelar nossos pensamentos e planos de fuga não efetivados. Segurávamos firme a mão gelada um do outro e resolvemos seguir. O motorista realmente nos levou para o restaurante, em que os amigos do Gui nos aguardavam.

Quando chegamos lá, ainda aterrorizados, recebemos imediatamente uma indicação, que nos parecia excelente. Seguimos a indicação e reservamos o hotel, que ficava pertinho da casa de um dos amigos dele. Era um hotel boutique lindo, chamado Visaya, com um restaurante delicioso e com um pouquinho de conforto imprescindível depois de tanto perrengue.

De todo jeito, antes de irmos para o outro hotel, tivemos que passar uma noite em Karol Bagh, no hotel imundo, no meio do lixão da Carminha. Não me lembro de sentir tanto medo nem quando eu era criança e me deparava com as coisas que eu não entendia. Mas naquela noite, percebi que no meio de todo aquele cenário desesperador, eu não tinha entrado em pânico, porque tinha o Gui ao meu lado. Antes de dormir, naquele dia, ele me deu o abraço mais forte de todos os tempos e me pediu para rezar e agradecer por tudo ter dado certo no fim das contas. Ele me fez sentir segura em seu abraço até que eu dormisse. Não foi nada fácil dormir depois de tudo aquilo, mas a saída daquele lugar estranho e a ida para Agra no dia seguinte nos inspirou.

Mais uma liçãozinha inusitada sobre a Índia: Conforme confirmado pelo amigo indiano do Gui, que nos indicou um novo hotel muito charmoso e bem confortável em Delhi, nunca confie nesses blogs de viagens sobre a Índia! Normalmente os que os alimentam e postam as informações, em que acabamos confiando, quando fomos parar em Karol Bagh, são mochileiros ou hippies, com padrão de exigência e de conforto bastante inferior ao nosso, já que estão em busca de meditação, ioga, do Tibet e do Nepal...

Foto: Jacqueline Costa

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Chegada em Mumbai

Jacqueline Costa

Gateway of India

Enfim, depois de uma longa viagem, chegamos em Mumbai de madrugada. Como ficamos um dia em Doha e a nossa mala foi direto para Mumbai, temíamos que ela fosse extraviada no caminho. A espera por ela foi bastante tensa, apesar de ter separado algumas peças na mala de mão.

Desembarcamos e nos deparamos com uma quantidade enorme de indianos carregadores de malas perto das esteiras e quando eles notavam que aquela era a sua mala, avançavam logo para cima dela, antes mesmo que você tivesse tempo para reagir. Eles queriam carregar as malas para receberem algum dinheiro por isso.

Quando já estávamos chegando no táxi pré-pago, que arrumamos, tivemos que nos render a um desses indianos, já que o motorista não conseguia colocar sozinho nossa mala no teto do carrinho, que nos levaria ao hotel.

Pelo serviço, entregamos ao carregador uma gorjeta de 4 rúpias. O moço ficou completamente indignado e obviamente nos xingou bastante em hindi, a língua que verdadeiramente é falada na Índia. Não tínhamos feito ainda as contas de quanto valia cada rúpia! Mas assim que fizemos, entendemos exatamente o que ele queria nos dizer. Um real equivale a aproximadamente 25 rúpias. Não tínhamos dado a ele nem 10 centavos...

O táxi partiu rumo ao hotel. O que nos impressionou muito é que o trânsito, em plena madrugada, era inacreditável! As buzinas lá nunca param. O que parou foi aquele carrinho pequeno, que era uma mistura de Fiat 147 com aquela minivan de cachorro-quente, que fica nas portas das faculdades aqui no Brasil. Foi uma parada para o abastecimento. O motorista  só enche o tanque com o que será exatamente necessário para cada corrida. Descobrimos ali que a mala estava em cima do carro, porque o cilindro de gás ocupava todo o porta-malas.

Com normas de segurança inexistentes naquele país, fomos obrigados a saltar do carro enquanto ele era abastecido. Foi bom para irmos nos ambientando com o cheirinho característico da Índia e com as muriçocas, que não são exclusividade de Belém do Pará. Claramente éramos sangue novo naquelas terras e atraíamos todos os bichinhos.

Também comecei a notar que a Índia não seria exatamente o sonho da mamãe e das minhas tias. Desde a saída do aeroporto percebi que a limpeza não é bem a especialidade deles. A essa altura, eu e o Gui nos divertíamos pensando em quais dos nossos amigos amariam estar ali no meio daquela confusão e quais nunca devem se aventurar na Índia, porque não darão conta nem de atravessar o aeroporto.

Depois de manobras radicais e emoções sem fim, chegamos a Colaba, com a certeza de que para haver a noção de mão e contramão é necessário um muro dividindo as pistas. Do contrário, prevalece a lei do mais forte. Faixas são meramente ilustrativas e o negócio é ver quantos carros, motos, bicicletas e vacas caberão na pista.

E isso foi só o começo de uma Índia no mínimo intrigante, mas já tivemos ali a certeza de que nos divertiríamos bastante.

Foto: Jacqueline  Costa

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A melhor pergunta de todos os tempos

Jacqueline Costa



Enquanto estava na Índia, não postei nenhuma história nova aqui no blog não por preguiça, por descuido nem por querer férias de tudo. Não postei nada, porque não levei computador. Apesar de ter o Ipad, não tínhamos uma conexão, que me ajudasse nessa tarefa. Além disso, não queria contar nada sem ilustração e não tinha como transferir minhas fotos da câmera para o blog.

A gente também, quando viaja, sempre quer sair muito, conhecer tudo, saber como um mundo tão diferente do nosso funciona, mas sempre há um tempinho para relaxar no quarto, ver um pouquinho da TV local e acabar voltando para a BBC, já que o críquete e suas regras não são nossa especialidade e de Bollywood, já basta a versão brasileira encenada, de tempos em tempos, por Glória Perez, no horário nobre. Mas eu estava de férias e não queria me obrigar a nada. Não consegui criar uma rotina para escrever dentro desses dias sem regras para ditar horários ou o que fazer. Achei melhor guardar tudo para contar na volta, por meio do meu computador, com as fotos que tiramos. Não queria resumir nada e nem esconder qualquer detalhe.

Em uma das vezes que consegui acessar a página do Toda conversada no Face, eu me deparei com a melhor afirmação, que já me foi enviada, desde que tenho o blog. O meu sumiço temporário foi expresso da forma mais objetiva e eloquente:

"Toda conversada, você está muito calada!"

A Jaqueline Nascimento, que trabalha comigo, me mandou essa mensagem. A minha vontade foi parar na frente do Ipad e escrever até esgotar todas as histórias, que já tinha vivido na Índia até então. Mas também não podia deixar de viver o que ainda tinha por viver  para fazer isso.

Morri de saudades disso! Escrever, escrever e escrever. Contar as histórias e falar do quanto tudo na Índia me chamava a atenção. Acho que já vou vivendo, tentando diagnosticar o que pode se transformar em uma boa história para o Toda conversada. E, por mais que pareça estranho, isso é uma delícia! Vou contar tudo aqui.

Acho que as nossas carinhas na foto são capazes de resumir tudo o que pudemos ver e viver lá, né?

Foto: Jacqueline Costa

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eu vou para a Índia!

Jacqueline Costa




Ontem eu me dei conta de que, em poucos dias, eu vou para a Índia. O dia começou um pouco mais cedo para que eu e o Gui tomássemos a vacina contra a febre amarela, necessária para entrar no país. Aproveitamos e atualizamos todas as vacinas atrasadas: tríplice viral e tétano. Nunca soube que depois de grande tinha que continuar tomando vacinas e acho que muita gente também não sabe, mas de dez em dez anos, essa atualização é necessária.

Fui para o Consulado da Índia solicitar o visto. Lá já identifiquei logo o clima indiano: todo mundo com a cor típica dos indianos, que acho que o pessoal de Florestal usaria com sucesso o termo encardido para designá-los. Todos falando inglês com aquele sotaque, que nem se eu quisesse, conseguiria imitar, mas que faz as palavras parecerem meio quadradas, eu acho. E o melhor: falavam inglês como se fosse um dialeto do leste da África dominado por apenas 200 pessoas. Assim, não tinham o menor pudor de falar sobre as pessoas da sala de espera, os pedidos de visto e os nomes estranhos dos pretensos viajantes, como se ninguém pudesse entender o que falavam.

Na sala de espera, aqueles tapetes gigantes, que me pareceram caros, sofás confortáveis de couro e fotos das figuras ilustres da Índia nas paredes. As pessoas, que esperavam ali, precisaram apenas de uma dúvida sobre o preenchimento do formulário para engatarem um papo bem animado sobre a vida na Índia e no Nepal. Quando olhei para os pés das pessoas de sandálias, apesar das ameaças de chuva em São Paulo, vários anéis de dedos do pé e tornozeleiras. Logo pensei: "Hippies!" E não estava errada.

Em poucos instantes, identificaram um amigo comum, alguma coisa tipo um mestre. Compartilhavam a experiência de tocar nos pés do moço e sentirem uma energia fortíssima, como em forma de ondas, verem o horizonte colorido e tal e etc. Falavam devagar, numa calma que tornava a minha paciência bastante diminuta.

Depois do tema energização com os pés do moço, passaram para a culinária local. Uma das moças lá da sala de espera está escrevendo um livro que correlaciona a comida indiana e do Nepal com o calendário religioso. Em determinadas épocas, alguns itens não são permitidos. Em outras, certos ingredientes são mais do que indicados. Pelo que entendi, isso nada tem a ver com safra e entressafra. O que rege as receitas é o hinduísmo mesmo.

Outra moça contava que tem um grupo de meditação para, segundo ela, oferecer aos paulistanos um espaço de relaxamento e encontro com Krishna. Em seu templo, as pessoas se alijam dos problemas e se tornam mais desprendidas. Penso que todo esse desapego é também um pouco de desapego da realidade. Se qualquer um, que lê o que escrevo, estivesse lá comigo, só de ver saberiam exatamente do que eu estou falando.

Meio chocada com o papo completamente surreal para mim, fui chamada para a entrevista. O meu entrevistador era brasileiro e não tinha qualquer traço de indiano. A minha cara, os brincos e as californianas no cabelo denunciaram a completa ausência de intenções de minha parte de me tornar Hare Krishna, entoar mantras e meditar o dia todo. Por isso, foi simples e rápida a minha passagem por ali.

Mas, por óbvio, como o Gui gosta que eu ressalte, não podia deixar de fazer algumas perguntinhas. Questionei se a concessão de vistos para a Índia era tranquila. O moço me disse que sim, mas que eles têm se tornado mais rígidos, por causa dos estudantes mochileiros, que descobriram o sudeste asiático, passam pela Índia e resolvem ficar lá para sempre com os mantras e a meditação.

Com todo o meu preconceito generalizante, diria que viram hippies e que isso é falta de couro. Pois é... Alguns pais concordam comigo e vão lá buscar os filhos. Só que os meninos insistem no projeto de vida com base no desapego e querem voltar. Nesse caso, o Consulado tem sido mais rígido na concessão dos vistos de turista.

Voltei para a sala de espera e enquanto guardava todos aqueles papéis, sempre necessários para a concessão de vistos, o mesmo grupo prosseguia animado com o papo. Falavam sobre a data de embarque e a ansiedade. Foi quando um moço, que antes já tinha se apresentado como recém-formado em Relações Internacionais (Minha irmã diria que ele ainda não percebeu que RI é como aula de violão. Você deve fazer por hobby, porque emprego nessa área é quase um milagre.), disse que vai primeiro para o Japão, mas chegará à Índia a tempo do dia 21/12/2012, o fim do mundo maia. Todos concordaram que essa data será reveladora e que pretendem estar na Índia quando ela chegar. Posteriormente também anuíram com a tese da moça, que tem o espaço de meditação aqui em São Paulo, que essa data revelará um novo homem. Para eles, será o fim da insustentável estrutura social e humana posta e que todos enxergarão, a partir de então, a necessidade de mudança.

Meu Deus! Foi demais para mim! Eu não espero uma data, prevista no calendário maia, para me tornar uma pessoa melhor. Tento fazer isso todos os dias. E não preciso marcar um encontro com Krishna para exercer a minha fé. É a coisa da onipresença. Não vou falar disso para não corroborar a tese daqueles, que acreditam que se Deus está em todos os lugares, não preciso ir à missa para me encontrar com ele, e não deixar a mamãe e as minhas tias furiosas. Mas, vale ressaltar: Eu rezo todas as manhãs, porque antes de encostar a cabeça no travesseiro, todas as noites, eu já dormi.

Agora é aguardar e ver o que a Índia me reserva, além desses brasileiros, que buscam apenas um encontro mais íntimo com Krishna...

Foto: Reprodução.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia do professor


Jacqueline Costa



Hoje é dia do professor. Comemora-se hoje o dia do profissional da educação.  Daquela pessoa que elegeu essa profissão como forma de sobreviver. Daqueles que passam o dia entre alunos, carteiras e quadros.

Lembro-me que, na semana passada, ouvia uma moça no metrô conversando com uma amiga sobre o ofício. Ela concluía que tinha elegido o sonho errado, para realizar na vida. A educação brasileira, quando resolveu que queria se dedicar profissionalmente a ensinar, parecia ser bem mais colorida, bem mais cheia de vida e bem mais instigante.

Depois, a dura realidade passou a consumi-la. Ela precisa dar aula em três turnos e em escolas diferentes para se manter em São Paulo. Com essa rotina, ela não consegue planejar as aulas, as provas e demais atividades, como gostaria. Assim, acaba dando uma aula mais ou menos e se frustrando bastante, porque não faz tudo que deveria e muito menos do que gostaria. Em função disso, aquela professora do metrô narrava as doenças e estresse, a que se submete, para dar conta de tantas turmas. Além disso, ela não tem tempo sequer para pensar em continuar estudando.

Essa não foi a primeira vez que ouvi uma história como essa. Penso que todo mundo já tenha ouvido um relato como esse e se entristecido por constatar que a esses profissionais compete o futuro do nosso país.

Infelizmente, aqui no Brasil, os professores não são valorizados nem respeitados, como deveriam. Muitos deles se dedicam e tentam construir algo novo e melhor, mesmo diante de todas as precariedades da estrutura, que lhe é oferecida. Outros acabam migrando para escolas privadas e desistindo do sonho de mudar a vida dos que mais precisam, por meio da educação.

Essa, sem dúvida, é uma categoria de heróis, que merecem todo o reconhecimento, não só hoje, mas todos os dias. Todos eles se comprometeram com a educação e com a construção de uma sociedade muito mais informada e instruída. Além disso, ensinar é um dos atos mais solidários, que pode existir. É doar um pouco de si. É compartilhar conhecimento.

Já perdi as contas de quantos professores tive ao longo da vida: alguns na escola, no cursinho e nas faculdades; outros fora desses lugares. Afinal de contas, a gente aprende o tempo todo. Todos contribuíram, de alguma maneira, com a minha formação. Muitos me ensinaram muito mais do que a matéria, que estava nos livros. Cada um é um pouco responsável pelo que sou hoje.

Quero muito fazer parte desse grupo de pessoas, que tem por ofício ensinar. Mas quero fazê-lo de outra forma. Quero muito dar aulas, por gosto, por prazer, por hobby, sem que isso seja a minha principal fonte de renda. Quero tornar essa atividade mais uma alegria e contribuir um pouquinho na formação de algumas pessoas, que se encontrarem comigo na sala de aula. Quem sabe um dia?

Foto: Reprodução.