quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sob o sol

Jacqueline Costa


Parei para pensar no quanto me senti atropelada pelo mês de dezembro. Aquela correria de compras, trabalho, malas, festas e viagens me fizeram entrar em um ritmo tão alucinante, que quando me dei conta, era Natal. Estava ali na mesa em uma, duas, três ceias sem ter conseguido sequer parar para refletir um pouco e pensar na beleza dos encontros que essa data me proporciona e no significado que ela tem. Apenas tentei encontrar o máximo de pessoas possível nos dias em que estive em BH e nas semanas anteriores aqui em São Paulo. Até a limpeza que faço todos os anos no meu guarda-roupas foi automática. Não consegui parar para pensar em nada além de essa ou aquela peça eu não uso mais. Essa correria que parece ser coisa só de dezembro acaba sendo um pouco parte da vida de todo mundo e vamos simplesmente nos deixando levar. Assim, acaba passando o Natal, o Ano Novo e sem nos darmos conta, chega o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi e o Natal de novo. Temos cada vez mais menos tempo para a conversa fiada, para deixar o tempo passar sem qualquer preocupação com o que fazer em seguida.

Passado o Natal do último ano, voltei para a casa, para o trabalho e em menos de 48 horas depois de abrir a porta e recolher as correspondências, já estava na estrada de novo, com destino a Angra dos Reis. Elegemos um paraíso e corremos para ele, esperando que nossos cinco dias lá passassem o mais lentamente possível. O telefone quase não tocou. O sol estava a postos no céu, a piscina, cheia, a água do mar, deliciosa e a cerveja, gelada. Dias assim são inspiradores e os amigos parecem ter passado o ano guardando as melhores piadas e as melhores dancinhas para eles...

Acho que nesses dias mais calmos pude parar para pensar no valor desses momentos, em que estamos com quem gostamos, no valor e no significado desses encontros e do quanto sou grata por 2013, que foi o ano mais feliz e mais especial da minha vida. Não tenho nada a reclamar, mas constatei que quero mais disciplina nos estudos para os concursos, ainda mais empolgação com a minha pós-graduação e mais eficiência no regime e na academia. Posso dizer que depois desses dias de sol, de que sentirei muita falta enquanto estiver sob o ar condicionado do escritório, estou verdadeiramente preparada para 2014. Que esse novo ano traga novos desafios, ainda mais alegria e mais momentos de conversa para o ar sob o sol.

Foto: Reprodução.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Mais um ano

Jacqueline Costa



Mais um ano de vida. E foi muita vida para o último ano... Foi viagem para a Índia, concurso, preparativos para o casamento, lua de mel e ufa! Chegou a hora de viver uma vida de verdade, com dia a dia e sem tantas flores, guardanapos, discussões sobre medidas do vestido, bordados, copos, doces e sem caixas de bebidas empilhadas por todo canto disponível. Depois das listas de presentes, veio a administração dos presentes, o que não foi nada fácil.

Agora, com a cabeça mais vazia e pronta para receber mais Contabilidade, Direito Tributário e Economia, posso me dar ao luxo de, algumas vezes, parar para pensar e concluir o quanto sou privilegiada. Não precisei me desdobrar entre estudo e trabalho até o fim da faculdade. Nasci sem qualquer dificuldade adicional, ouvindo perfeitamente, capaz de andar, falar e aprender. Tanta gente tem ainda que, além das dificuldades do curso normal da vida e dos desafios que ela nos impõe, superar outras que vieram para elas, talvez porque sejam mais fortes.

Ontem eu vi uma mãe muito feliz no ônibus, voltando para a casa com seu filho, que tinha na cabeça vários sinais de cirurgias, usava aparelhos auditivos e tinha muita dificuldade para andar. Pensei na mãe, que acompanhava o filho sem qualquer sinal de amargura e que demonstra tanta paciência e amor com ele. Em relação ao filho, constatei que a vida foi bem menos generosa com ele, que tem várias dificuldades adicionais para superar antes das dificuldades normais por que todos passam, do que comigo.

Hoje vi uma mãe contando como descobriu um câncer no olho do filho e que enquanto passavam por um longo tratamento, que terminou com a retirada do olho, ela ficou grávida e teve outro menino. Fiquei imaginando na força dessa mulher, enquanto ela dizia o quanto tinha aprendido com a criança em todo esse processo extremamente doloroso.

Esses exemplos que misturam força e doçura são absolutamente inspiradores e me trazem a mais profunda gratidão com a vida. Quando paro para pensar em mais um ano, percebo o quanto sou abençoada, o quanto tive sorte e o quanto sou feliz. Só tenho a agradecer por minha vida, por meu amor, minha família e meu trabalho e pedir que venham muitos outros anos como esse.

Foto: Reprodução.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Respeito como linguagem universal

Jacqueline Costa



Dias depois de a menina Malala - aquela que levou um tiro na cabeça por ter divulgado ideias sobre a educação de meninas no Paquistão - voltar aos noticiários, por ter ganho o Prêmio Sakharov, no Parlamento Europeu, eu tenho pensado muito nas diferenças culturais que nos separam. E não apenas em relação aos países árabes, mas também em relação a todo tipo de cultura diferente da nossa.

Seria muito pretensioso achar que a nossa cultura é ideal, perfeita e com base nela poderíamos pensar tudo o que se passa no mundo. É justamente esse o problema quando começamos a debater situações contextualizadas em culturas diferentes da nossa, com base no que pensamos, fruto indissociável da criação que tivemos, da educação que recebemos e dos costumes de onde vivemos. O que quero dizer é que não posso avaliar a cultura de outros países com meus olhos de brasileira, classe média e pós-graduada. A cultura de cada um deve ser pensada em seu contexto.

Obviamente existem questões absurdas diante de qualquer cultura e de qualquer contexto, como a violência física, praticada pelos maridos às mulheres. Li uma reportagem com relatos dolorosos de mulheres que por anos foram violentadas sexualmente por seus próprios maridos, que, em muitos casos, as agrediam e as mantinham presas e sem comida e água por dias. Outro caso é a forte repressão que as mulheres sofrem em países como o Afeganistão e o Paquistão, quando lutam por seus direitos, como aconteceu com Malala. Ou ainda os casos absurdos de mulheres violentadas em plena Praça Tahrir, no Egito, em meio aos protestos contra o presidente Mohammed Morsi. Além desses, há os incalculáveis casos de mutilação genital feminina, praticada em vários países africanos e em alguns árabes. Para não dizer que trato apenas de questões relacionadas às mulheres, também fazem parte dessa lista de desrespeito ao ser humano em qualquer concepção que se adote o número que cresce a cada ano de refugiados africanos, que são expulsos de seus países pela guerra ou por questões políticas e migram para outros lugares. Eles fazem isso para não morrerem e deixam tudo para trás: emprego, casa e muitas vezes até a mulher e os filhos. Convivo com muitas dessas faces inevitavelmente tristes todos os dias, quando vou para o trabalho e passo próximo aos vários prédios do Centro de São Paulo, que abrigam os refugiados.

No entanto, não é a isso que me refiro. Falo de quando julgamos o uso do véu, da burca e de outros costumes tão estranhos para nós, como esses. As críticas, nesse caso, devem ser feitas com base em uma única coisa: respeito. O respeito à diferença deve guiar toda e qualquer discussão. Compreendo que nem todo mundo entenda a simbologia desses elementos na cultura árabe, por exemplo. Entendo também que muitos falam mais do que escutam, do que leem e não têm tanto interesse assim em pesquisar, em buscar compreender como o outro pensa, como o outro age ou com base em que suas decisões são fundamentadas. Mas quando estive por apenas dois dias em Doha, há um ano atrás, pensei muito no assunto e, desde então, trato esses temas com muito mais cautela do que já costumava empregar em qualquer discussão a respeito.

Penso que definição do meu conceito de liberdade pode ser, muitas vezes, tão restritiva, como acreditamos ser o uso da burca. A obrigação que temos de exibir um corpo perfeito o tempo todo leva muitas pessoas a se tornarem absolutamente escravas das dietas impossíveis, da malhação desenfreada e dos suplementos alimentares, que tomados sem orientação trazem mais malefícios, como a sobrecarga dos rins, do que benefícios. Vi um programa sobre uma ex-miss Estados Unidos, que não soube administrar as cobranças para que mantivesse o corpo perfeito e, por isso, acabou descontando toda a ansiedade que isso lhe causava na comida. Ela se tornou obesa, diabética e alcoólatra e entendia ser essa a sua sina. Por outro lado, nos shoppings de Doha, vi mulheres tão ou mais vaidosas do que eu, sentindo-se lindas e absolutamente livres da ditadura da balança por debaixo do véu; liberdade essa que muitas ocidentais não têm.

Querer impor a minha cultura, a forma como eu penso para outra pessoa, que possui outros parâmetros de vida e de entendimento do mundo é, antes de tudo, querer colonizar. É fazer o mundo girar ao contrário para voltarmos ao século XVI, quando se acreditava ser a cultura européia a melhor de todas e, justamente por isso, foi imposta violentamente aos países colonizados. Acredito que esse tempo ficou para trás e hoje o que mais existe no mundo é informação. Então, por que não aprender e compreender um pouco mais a maneira de pensar e de viver do outro antes de pensá-lo apenas com os nossos critérios?

Respeitar as diferenças culturais é ver no outro a possibilidade de pensar e agir diferente de mim. É ver que o mundo não é só do meu ou do seu jeito. É saber que as coisas funcionam, lá longe, de uma forma estranhamente diferente para mim, mas funcionam. De um jeito ou de outro, funcionam. O respeito é uma forma de enxergar o mundo sem lentes e as diferenças são o que o tornam mais colorido.

Foto: Reprodução.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Seis meses depois

Jacqueline Costa



Já se passaram seis meses desde que dissemos "sim". Fui pega de surpresa quando constatei o fato. Eu queria estar até agora vestida de noiva lá na festa, rodeada das pessoas mais queridas, que tanto torceram por nós. Alguns desde o primeiro segundo estiveram na torcida. Outros deram os nossos primeiros puxões de orelha, preocupados com o nosso relacionamento e com aquilo que estávamos construído. Ali percebi o quanto tinha a agradecer a todos, porque senti, de verdade, que estavam tão felizes quanto nós.

Depois de seis meses, verifiquei também que era hora de parar e escolher as fotos para o álbum e avaliar as mudanças possíveis no nosso trágico vídeo de casamento (a melhor coisa nele é a musiquinha do Programa Amaury Junior, o que me rendeu boas risadas). Rever tudo isso foi para mim como reviver aquele dia lindo. Eu me vi tão emocionada como na hora em que me encontrei com a Raquel na porta da Igreja e pensava comigo no quanto sou privilegiada por tê-la na minha vida, afinal de contas nós compartilhamos toda a organização e estávamos ali, vestidas de noiva, esperando que aquele fosse o dia mais feliz de nossas vidas. Sentíamos as mesmas emoções e nossos corações batiam exatamente no mesmo ritmo. Realmente aquele foi o dia mais feliz de nossas vidas. Se alguém me perguntar se valeu a pena, responderei sem titubear e tão alegre quanto o fiz em frente ao padre: "Sim!" Foi um dia incrível, inesquecível e perfeito para mim.

Quem me vê falando assim, pode pensar que se estou tão nostálgica, é porque me amparo nisso e apenas levo a vida com a mudança do estado civil. Ledo engano. Acho que as descobertas do dia a dia e a alegria do reencontro após mais um dia de trabalho traduzem exatamente o quanto tem sido lindo viver juntos.

O Gui descobriu que o sabonete acaba mais rápido, vidros de xampu procriam e que a motivação para ver o vídeo de casamento varia muito entre homens e mulheres. Eu percebi que o creme dental também acaba mais rápido, que por mais que ele reclame dos nossos vidros de xampu, ele adora os meus importados, e o quanto é mais fácil arrumar a cama em equipe.

Acho que fazer parte dessa equipe faz com que me sinta mais segura, mais unida a ele. É o que nos faz planejar juntos e construir juntos o nosso futuro, que vai além do meu futuro e do futuro dele, também extremamente importantes, mas que são, de certa forma, atenuados pelo "nosso". Mesmo na correria dos nossos dias, encontramos tempo para nos preocupar um com o outro, para ficarmos um pouquinho juntos e para rirmos bastante juntos. Penso que a tradução perfeita para "equipe" é "juntos" e foi delicioso aprender isso nesses últimos seis meses.

Foto: Glades Olivier.



E para o Tuquinho, que sugeriu o post, aprendi também, nesse mesmo tempo, o quanto você faz falta no nosso dia a dia e o quanto me faz feliz lembrar dos nossos dias de sol, verão, bossa nova e Bibi ou mesmo por falar com você ainda que por menos de um minutinho pela internet ou pelo telefone! Já estou na contagem regressiva para a sua chegada!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Dia do professor

Jacqueline Costa



Mais um dia dos professores. Como o tempo para mim começou a passar mais rápido, não tenho parado muito para pensar nessas datas que se repetem todo ano. Ocorre que ontem, vi uma homenagem linda de uma aluna à Professora Miracy, da Faculdade de Direito da UFMG, que foi a minha orientadora de monografia. Acho bastante injusto dizer que ela orientou só a minha monografia. Ela guiou a minha vida e me mostrou que a universidade em que eu sempre acreditei. Apesar de todos os problemas, essa universidade existia de verdade.

Com ela aprendi um pouco sobre pesquisa e extensão, sobre como ser mero observador de uma realidade e observador no sentido de que eu não posso mudar a vida das pessoas, mas posso mostrar para elas que existem caminhos para tanto. Posso mostrar o que é mobilização, como usar a conciliação, mas as verdadeiras mudanças, só elas mesmas podem operar. Com a professora Miracy, aprendi a acreditar, a ter esperança no mundo e nunca perder a fé nas pessoas.

Ela, sem dúvida, é um dos grandes exemplos de mestres que passaram pela minha vida. Foram muitos, mas não me esqueço também de quem me ensinou a escrever meu nome e as minhas primeiras linhas, de quem me incentivou a escrever cada vez mais e mais e de quem apostou em mim, como alguém com um talento a ser desenvolvido e aperfeiçoado.

Nesse caminho, os mais marcantes foram meus professores do Santo Agostinho. Naquela época, em que a escola era o centro da minha vida e ocupava quase todo o meu dia, vivíamos a incessante busca por pontos, em provas, trabalhos, exercícios. Aliás, sobrava bem pouco tempo depois de todas essas tarefas feitas. Por isso, reclamava. Dizia querer mais tempo para mim. Hoje me parece no mínimo engraçado querer tempo, quando tinha todo o tempo do mundo para mim. A escola era a minha única responsabilidade e não tinha que me preocupar com nada além disso. Todo o resto, corria por conta dos meus pais. Reclamava das férias de janeiro, quando a chuva do verão impossibilitava qualquer aventura mais empolgante. Mas posso me lembrar que, quando isso acontecia, começava a torcer para que as aulas voltassem logo. Queria rever meus amigos, reencontrar os professores e passar as mesmas raivas com mais trabalhos, provas e exercícios.

Sinto realmente muita falta daquele tempo. Sinto falta daqueles professores que fizeram mesmo tanta diferença na minha vida. E agora estou aqui doida para exercer esse papel, quem sabe, em algum momento, em tempo integral. Como já não tenho mais todo o tempo do mundo só para mim e para os estudos, posterguei um pouquinho esse plano em função de outras prioridades, mas ele não está esquecido. Será retomado o quanto antes possível. Só preciso passar logo em outro concurso.

Por enquanto, parabenizo todos aqueles que se dedicam por amor à educação e que sabem que podem ser capazes de mudar, por meio dela, a vida das pessoas atingidas por seu trabalho.

Foto: Reprodução.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O que é ser nerd?

Jacqueline Costa



Fim de semana com aniversário do Luhen, que é aquele tipo de pessoa para quem não se diz não. Apenas questiono o que vamos fazer e vamos lá, por mais que nossas preferências pessoais não sejam exatamente parecidas. Ele curte o clássico programa de macho, com aqueles rocks estranhos e muita gente esquisita. Mulher? Nesses ambientes, se juntar todas, não dá meia. Mas vamos lá.

Ele juntou alguns amigos e fomos para o Pubcrawl na Vila Madalena. Era uma festa meio nômade, que ia mudando de lugar de tempos em tempos, indo de baladinha em baladinha com um bando de gente, que, a cada parada, ficava um pouquinho mais bêbado. Na concentração, notamos que pagaríamos mais caro, porque não estávamos fantasiados, o que, nesse caso, considero que seja uma bela vantagem. Preciso estar investida de surpreendente motivação para sair por aí em um sábado qualquer, que nem é de Carnaval, vestida de She-Ha ou de Chiquinha.

Era uma típica festa de jovens nerds. E no contexto jovem, definitivamente não nos inseríamos. Vi uma menina que se achada a verdadeira idosa por saber cantar inteira a música do Pokémon. Eu pensei: "Minha filha, eu sei recitar The get along gang!" Melhor do que isso, só o susto que a menina que servia cerveja tomou ao ver que um amigo do Luhen era noivo, realidade bem distante para ela.

Em meio a risadas, dancinhas e bebidas em copos gigantes, fomos parar em uma balada cubana. Adoro salsa, mas me sentia num vidro de tempero pronto de tão cheio que o lugar ficou. Fui ao banheiro e enquanto esperava a minha vez, em uma fila lado a lado com a do banheiro masculino, um rapaz me abordou e, sem pestanejar, me disse: "Sua bolsa não é nerd!" Concordo que chutches da moda realmente não façam parte do universo dele. Aliás, ele, de fato, não devia saber o que é uma clutch e para que serve exatamente. No mínimo, deve achar que aquilo tem cara de estojo ou porta-post-it.

Fiquei pensando nisso, meio indignada, confesso, até chegar em casa. Primeiro que acredito que o adjetivo nerd se coadune com pessoas, jogos, comportamentos, mas, em relação a bolsas, foi para mim novidade. Segundo que não consegui conceber exatamente o que seria uma bolsa nerd. Talvez seja uma bolsa feita de Lego. Não sei. Ainda não concluí nada a respeito. Acho que o mais próximo de bolsa nerd que eu posso chegar é usando a Chanel realmente inspirada no Lego. Essa sim combina comigo. Pena que ela não combina exatamente com o meu orçamento...



Foto: Reprodução.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Direito é linguagem

Jacqueline Costa



A minha nova pós-graduação, pela qual estou apaixonada e já triste porque vou entrar de férias daqui a pouco (queria dois anos ininterruptos de alegria e empolgação, inclusive com as noites mal dormidas, por causa dos seminários, livros espalhados por toda a casa e a cabeça cheia de dúvidas e da certeza de que sei ainda muito pouco) tem me feito pensar muito a respeito da linguagem, dos argumentos jurídicos e não jurídicos e da questão da coerência. Realmente é preciso ser coerente e não deixar que todo o seu discurso se esvaia, porque é contraditório, porque acredita nisso para uma coisa, mas ao ser questionado sobre outra hipótese para a mesma questão, já muda de ideia.

A minha nova pós tem me feito pensar muito, mas estamos vivendo um momento extremamente relevante politicamente, com a inquietação e desconforto da população, expresso pelas manifestações e, em especial, com o julgamento do mensalão, como um todo, não apenas quanto à admissibilidade dos embargos infringentes. Nunca vi tanta gente se manifestar a respeito de temas estritamente jurídicos, como o cabimento de tal recurso e, diante disso, todos os tipos de argumentos que definitivamente não são jurídicos emergiram. Cansei-me de ouvir que ladrão tem que ir para a prisão, mas que, nesse país, rico não vai para a cadeia. Tem gente que acha que estão dando um jeito de inocentá-los e que estão mudando as regras do jogo. Dizem que se já foram julgados, está tudo certo e pronto. Simples assim! Mas sobre as questões acerca da revogação do Regimento Interno do STF, muito pouco se falou. Nem mesmo meus colegas do direito discutiram essa questão, por mais relevante e difícil que seja.

Chamo à atenção o fato de que o direito é linguagem: É técnica e exatamente por isso não está acessível a todos, ou seja, aqueles que argumentam que se trata de uma ciência prolixa que deve ser simplificada não têm nem um pingo de razão. Até concordo que os advogados, juízes e todos aqueles que trabalham com o direito deveriam prezar pela norma culta, pelo respeito à gramática e, assim, observar a necessidade de objetividade, de elaboração de um texto coeso e coerente. O que quero dizer aqui é que não temos, enquanto operadores do direito, no exercício de nossa função simplificar os termos técnicos ou, até mesmo, inutilizá-los, comprometendo os institutos jurídicos, para que a população compreenda do que estamos falando.

Fico aqui me perguntando, por que ninguém questiona e clama pela simplificação da linguagem médica por nomes, descrição e tratamento de doenças em termos mais simples acessíveis a todos, abolindo o linguajar técnico, inclusive no que concerne aos medicamentos prescritos? Por que ninguém questiona a simplificação da linguagem dos engenheiros para que qualquer simples mortal tenha acesso e compreenda com perfeição o projeto de uma casa, por exemplo? Por que ninguém critica e se rebela contra as demonstrações contábeis para que se tornem mais simples e qualquer pessoa possa compreendê-las com exatidão?

Então! É isso! É disso que estou falando. Direito é linguagem e linguagem técnica. Não há de se buscar a simplificação de seus institutos ou de seus termos técnicos. Nem todo mundo precisa e quer saber a diferença entre recurso especial e recurso extraordinário. Não há a necessidade de transformar o telejornal em uma pseudo-aula de direito, para explicar o prequestionamento, exame de admissibilidade ou teoria da culpabilidade.

Quem não é operador do direito tem todo o direito de ter um pouco de dificuldade quanto a essa compreensão de que é direito é técnico e o direito positivo, objeto de estudo da ciência do direito, por quem faz ciência do direito. O que não aceito é que as pessoas que passaram cinco anos na faculdade e, inclusive, já tendo se rendido a cursos de pós-graduação, levante essa bandeira pela simplificação. Normalmente são desses que costumo ouvir argumentos não jurídicos para defender essa ou aquela decisão, se rebelar contra esse ou aquele posicionamento e discutir sempre sem qualquer preocupação com a concatenação de ideias em um discurso eminentemente jurídico. São esses que se investem na autoridade de "doutor" e soltam por aí, aos quatro ventos, as coisas mais estúpidas que já se viu.

Nós, operadores do direito, temos a obrigação de dele cuidar, de prezar por ele e devemos saber separar o que seja argumento jurídico do que não seja. Também temos o direito de termos opiniões leigas diante dos fatos jurídicos, mas não podemos fazer pensar que se trata de opinião jurídica ou que isso esteja de acordo com a lei. É essa pretensão de conferir jurisdicidade a tudo pelo simples fato de ter estudado direito que acho que temos combater. Opinião pessoal, indignação e se considero isso justo ou não não podem ser confundidos com o que, de fato, é o direito.

Foto: Reprodução.